
Há motivos para amar James Joyce. Eles não são poucos. Pior: há quem diga que os motivos para amar Joyce são puramente lingüísticos. Porque Joyce reinventou a linguagem literária, como se reinventar a linguagem fosse motivo suficiente para você ser o maior gênio de todo um século. Um século pouco prolífico no sentido de produzir gênios, mas ainda assim.
A linguagem de Ulisses é genial. A cada capítulo, uma nova forma narrativa. São 22 maneiras de contar trechos da história do simplório Leopold Bloom, que passa a peregrinar pela cidade de Dublin afim de não ficar em casa para assistir o desastre eminente: sua esposa, Molly, está prestes a traí-lo. Leopold passa o dia fazendo as coisas mais comuns, que homens mais comuns fazem, e ainda termina por se encontrar com o amigo intelectualóide homeless Stephen Dedalus. Os dois vão para um bordel e enchem a cara, etc, coisas que homens fazem.
A história de Ulysses também não parece ter os elementos mais inovadores da ficção ocidental. Ela nem ao menos termina. O que acontece com Bloom? Ele perdoa Molly? Stephen encontra uma casa para morar? Vai acabar morando com Leopold e Molly?
Não sabemos. Todos os acontecimentos reais ficam envoltos numa névoa em que fica claro que Joyce pensava que, você, leitor, não precisa saber de nada disso. “Não seja mundano e mesquinho a este ponto”, diria.
O segredo de Ulysses é a perfeita transcrição do espírito dos homens. Sim, o espírito dos homens, não acompanhado do clichê “o espírito dos homens de uma época”. Os sentimentos, os amores, as dores, os ciúmes, as humilhações sentidas, as preocupações banais, os prazeres estúpidos, os segredos escondidos são tão humanos que não podem ter sido inventados no século XX. Eles nasceram com a humanidade. Ou melhor, com a humanidade, desde que esta resolveu tornar-se civilização e misturar sentimentos nobres com os esdrúxulos.
É a sensação de que todos os homens são parecidos, desde os intelectuais aos estúpidos, desde os antigos até os do século XXI, que mais espanta. Se Joyce terminou de escrever a obra-prima em 1921, digamos que já fazem 90 anos. Quase um século de humanidade e nada mudou. Uma prova? Leia o trecho a seguir, em que Leopold Bloom divaga sobre o que faria caso pudesse tomar o poder político um dia:
“A escolta de Bloom distribui os óbulos da Quinta-feira Santa, medalhas comemorativas, pães e peixes, insígnias da sociedade de temperança, charutos caros Henry Clay, ossos grátis para fazer sopa, preservativos de borracha em envelopes selados atados com fio dourado, caramelo, caramelos de abacaxi, billets-doux sob a forma de chapéu de bicos, ternos confeccionados, papas de carne assada, garrafas de desinfetante Jeyes, selos para compras, indulgências de 40 dias, moedas falsas, salsichas de porco alimentado em leiteria, passes de teatro, bilhetes da estação válidos para todas as linhas de bonde, cupons da loteria húngara real e privilegiada, fichas de um penny dando direito a um jantar gratuito”
Por acaso os nossos governantes atuais não achariam “simplesmente divino” distribuir exatamente os mesmos objetos citados cima? A política não mudou nada em quase um século? Se não está convencido, dê uma olhada na lista de livros de edições baratas que Bloom pretende distribuir para o povo, a que se refere como os “Doze Piores Livros do Mundo”:
“Froggy e Fritz (político), Proteção do Bebê (infantil), 50 refeições por 7/6 (culinário), Foi Jesus um Mito do Sol (histórico), Expelir Aquela Dor (medicinal), Compêndio do Universo do Infante (cósmico), Vamos Todos Rir à Socapa (hilário), Manual do Publicitário (jornalístico), Cartas de Amor da Mãe Assistente (erótico), Quem É Quem no Espaço (astronômico), Canções que Atingiram Nosso Coração (melódico), Maneira Econômica de Alcançar a Fortuna (parcimonioso)”
Alguma coisa em comum com as maravilhas literárias com as quais somos obrigados a nos deparar nas livrarias da vida?
Ah, a humanidade. Não pára de nos surpreender.
(Para a Revista Idéias n° 83)
