quarta-feira, 18 de junho de 2008

Sobre o saber muito pouco ou quase nada

Eu não tenho pressa em expor minhas opiniões nas conversas lideradas por pessoas mais velhas que considero inteligentes porque confio no tempo em que estas pessoas tiveram para ler tudo o que eu ainda não li e confio na sua capacidade (que fique claro que esta não é a capacidade de todas as pessoas mais velhas, of course) de selecionar o que ler.

Isto não quer dizer que sou submissa ou que me considero incapaz de expor algum ponto inteligente. Mas sendo minimamente esperta, tenho que admitir: as chances são mínimas.

Ou será que confio demais no tempo e nas pessoas?

E se não pudermos confiar em ninguém?

Well dear
, as pessoas todas são formadas dos mesmos elementos que formam as mesmas células que formam os mesmos tecidos que formam os mesmos órgãos que formam corpos parecidos e completamente diferentes. Mas isso quer dizer que temos alguma coisa em comum.

Se temos alguma coisa em comum, escolho confiar em algumas pessoas.

Algumas mortas, com elas eu não converso, só antes de dormir ou quando estou ficando louca.

Disso tudo só posso concluir que saber quase nada é uma benção: se há tanto para aprender, ainda vou ter tanto com o que ocupar a minha mente enquanto eu viver e isso é sempre bom, porque, vocês sabem, cabeça vazia...

Eu também não gosto de reticências.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

I hate you Carrie Bradshaw


Ilustração: David Hughes

Eu não vou repassar o assunto sobre o quanto eu odeio o feminismo e forçações de barra que vêm anexadas a ele. Em vez disso, vou apenas relembrar my fellow readers sobre este ponto e fazer com que sejam obrigados a puxá-lo de memória. Ou então ler artigo anterior sobre o assunto.


Isto posto.


Na maior parte do tempo, eu gosto de levar a vida como uma pessoa do sexo feminino. As roupas foram feitas para mim, nós somos o sexo belo, podemos nos aproveitar de sermos “frágeis” para não carregar malas e, enfim, há uma lista imensa de detalhes pequenos da vida atual que me fazem estar satisfeita com a minha posição “mulher” na sociedade.


O que me chateia com freqüência é ser obrigada a engolir certos produtos fabricados “para mulheres” que nada mais são do que uma vergonha e mais um motivo para que sejamos piada em frente ao outro sexo (não quero ser redundante). Um deles é a revista Nova. Outro é o seriado, agora filme, Sex and the City.


Essa foi a semana da febre “reunir as amigas tomar um cafezinho e assistir Sex and the City”. Nada contra. Adoro reunir as amigas, tomar café, vinho, comer pizza e falar mal dos outros. Adoro. Esse é um traço bem feminino da minha personalidade que não nego.


Mas este filme é demais para mim. Olha, eu preciso desabafar.


Todas as mulheres com quem conversei parecem ter gostado dessa palhaçada ridícula e inverossímil, o filme mais esperado pela gay community e pelas associações de mulheres desesperadas, ops, bem sucedidas, através do mundo. Tudo o que vi na tela foi uma sucessão de demonstrações de egoísmo, futilidade, falta de comprometimento com bigger issues e enobrecimento de atitudes que não levam a nada.


Carrie Bradshaw. “Escritora” e jornalista, diz que todas as mulheres que vão a Nova Iorque só estão pensando em “Labels and Love”. Eu não vou discutir a questão “labels”, porque acredito que todos têm o direito de gastar o seu dinheiro e o seu tempo livre (e isso inclui o meu, é claro, já que também gosto de moda) da maneira que os fizer menos miseráveis e se isso incluir um vestido Oscar de la Renta, ou uma bolsa Prada, não acho que seja um grande problema. A preocupação com o design e com as artes visuais passaram a fazer parte da história humana e contanto que o amor pelas “marcas” não saia do controle e que as mulheres tenham outras coisas em mente, o amor pela moda pode ser visto como nada mais nada menos do que um amor pela humanidade que custa muito caro.


Agora, amor? A menos que a sua concepção de amor seja provar para 170 pessoas que você pode vestir um Vivienne Westwood e que um homem está interessado em pagar a sua ida à igreja e uma recepção para tantas pessoas, que, sem dúvida, 80% são consideradas por você mesma desprezíveis, não acho que isso seja amor. Agora lá vem, porque vão me dizer que eu sou uma feminista louca contra casamento na igreja e outras frescurices de mulher. Oi? Muito pelo contrário. É a tal Carrie Bradshaw e suas amigas de Sex and the City que pareciam ter outras questões em mente muito além do vestido branco e véu e grinalda e no final das contas se viram reféns de uma coisa tão imbecil quanto uma capa na Vogue para mostrar que saiu da solteirice. Quer dizer: Carrie é machona o suficiente para, a dois, não aceitar que seu futuro marido pague o apartamento em que ela vai morar sozinho. Mas não é tough enough para agüentar ser largada na igreja. Ora, na hora de fazer a listinha de quem iria testemunhar sua felicidade ela foi generosa. Mas na hora de encarar o abandono, coitada, se viu de novo nas mãos de um perverso homem-lobo vindo direto das cavernas, insensível, burro e fraco como, caham, “todo homem deve ser”.

Aliás, sobre abandono no altar, alguém me explica aquela cena em que Mr. Big resolve apenas não casar com Carrie e sair correndo porque bateu o desespero já que a mocinha não atendia o celular? Será que alguma coisa pode ser mais ridícula do que o momento em que aquele imbecil de 45 anos fica escondido dentro do carro repetindo: “Look at me Carrie, look at me babe, I need to know it’s still us”?

Primeiro que homem nem tem essas de “I need to know it’s still us”. Quem se envolve nessas questões irrespondíveis e adequadas a consultórios psicanalíticos geralmente são mulheres pentelhas que não sabem ver a vida com objetividade e praticidade. Segundo que, come on, o cara gastou aquela grana no apartamento, no casamento, e vai vender a dignidade assim, facinho, de grátis, só porque a Sarah Jessica Parker não atendeu o celular?

Eu até faria uma análise mais profunda sobre a situação da mulher e do homem na sociedade e sobre como a gradual ascensão da mulher fez com que fosse criado um tipo caricaturado de homem que não existe e que, se existisse de verdade, o mundo estaria em um caos ainda maior do que já se encontra. Mas por que motivo eu seria tão profunda se as próprias personagens do seriado mais idolatrado pelas mulheres nos últimos anos são tão superficiais?

Eu não sou contra o entretenimento baixo e de pouca qualidade. Não sou contra novelas. Eu mesma assisto a novelas quando preciso esvaziar a mente e quando a leitura de Ulisses certamente não irá contribuir muito para o esvaziamento total e completo do pensamento.

Mas esse tipo de passatempo deve e tem que ser visto apenas como passatempo. O que me preocupa é que muitas mulheres realmente pensam que a vida é daquele jeito. Que os homens são um bando de canalhas sem coração que largam mocinhas no altar. Que, se não são isso e se querem entrar seriamente em um relacionamento, só podem ser estupidamente desinteressantes, como Steve, o marido de Miranda, ou completamente burros e estéticos, como o coitado que acaba levando um pé na bunda da Samantha.

Onde foi parar o senso de auto-análise dessas personagens e das mulheres que as admiram? Quão patético pode ser uma mulher com 50 anos que só pensa em sexo? E uma maluca que se separa por um motivo completamente injustificado apenas por pena de si mesma, sem pensar no filho? E uma outra, tão sem graça que só foi citada no final desta resenha, que passa a maior parte do seu tempo obcecada com a idéia de ficar grávida?

Isso é amor? Isso é o que? Alguém me explica, eu perdi o fio da meada. Nesse filme não se fala nem em desenvolvimento pessoal ou whatever. O mais perto que chegamos de algum trabalho intelectual é uma breve citação de Keats que Carrie faz quando, de novo, está pensando nela mesma e nas cartas que não recebeu do seu não-romântico e péssimo namorado.

De novo, insisto, se Sex and the City fosse só diversão, nada disso me importava. Não sou elitista ao ponto de pensar que não se pode perder tempo com bobagens. A minha preocupação é a que ponto essas bobagens passam a ser levadas a sério quando o vazio espiritual é muito grande.

domingo, 8 de junho de 2008

Bolaño, como te quiero



Roberto Bolaño é o latino-americano da vez. Já houve tempos em que só eram citados grandes nomes como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges. Ao que tudo indica, o chileno ganhará seu lugar merecido entre os grandes que contaram a histórica da miséria e do amor nesses países em que tudo é mais escasso e colorido e os acordes das músicas são sempre em tom maior. Nesse países onde o ritmo da dança lembra a pornografia.

Bolaño começou a ganhar fama no Brasil e nos Estados Unidos quando morreu, em 2003. Sua obra-prima, os Detetives Selvagens, foi publicada no Chile em 1998. Mas só foi traduzido para o português em 2006.

Os personagens principais são Ulisses Lima e Arturo Belano, dois poetas real-visceralistas que resolvem empreender uma busca para encontrar a poeta Cesárea Tinajero, criadora do tal real-visceralismo, o movimento poético do qual fazem parte os dois e seus amigos.

A história é contada sob a perspectiva de diversos personagens. A princípio, lemos o diário de um outro poeta real-visceralista, García Madero. García é aficionado por poesia e despreza seus companheiros, que considera incultos, pois não sabem de cor todas as métricas poéticas já inventadas no mundo. Ele sabe. O jovem poeta (tinha menos de 20 anos quando começa a narrar a história) conhece todas as formas de poesia utilizadas durante o percurso literário da humanidade.

A verdade é que o livro inteiro é uma aula. Em um dado momento, paramos de seguir o diário de García Madero e começamos a ler os depoimentos de diversos escritores, jovens, artistas e malucos do mundo todo que encontraram os dois poetas entre os anos de 1976 e 1996. Há quem diga que Arturo Belano seria o próprio Roberto Bolaño e que Ulisses Lima seria o amigo de Bolaño, Mario Santiago Papasquiaro.

Os depoimentos contam a história do México, do real-visceralismo, da juventude nascida nos anos 50 e também, como não poderia deixar de ser em uma boa obra de ficção, os Detetives Selvagens conta a história do amor. Os personagens são apaixonantes e nos surpreendem a cada passagem excêntrica contada durante todo o livro. Como a história de Auxilio Lacouture, que ficou presa durante 15 dias em um banheiro da universidade durante uma revolução. Durante esse tempo, tudo o que Auxilio fez foi ler um livro de poesia de Pedro Garfia que tinha guardado com ela e escrever em folhas e folhas de papel higiênico.

É nesse clima de improvável realidade, porém distante do realismo mágico de Gabriel García Márquez, que as histórias contadas pelos excêntricos personagens se desenrolam. Tudo isso em meio a milhares (sem exageros) e milhares de referências literárias, poéticas e ficcionais, que os poetas citam ao longo de seus discursos.

Detetives Selvagens é uma declaração de amor à literatura e aos amantes da literatura. É uma imersão no mundo das letras, da escrita, da ficção e da poética. No mundo de Lima, Belano, e dos real-visceralistas, todos são apaixonados pela grande arte. Desde os jovens poetas, até os pais deles, como é o caso das irmãs poetas María Font e Angélica Font, cujo pai, Joaquim Font, é arquiteto, mas está sempre sonhando em finalizar sua revista literária real-visceralista. Neste mesmo mundo, todos os poetas e escritores tomam partido. Há os que idolatram Octavio Paz, o grande poeta mexicano e único a ter recebido o prêmio Nobel. Há os que o odeiam.

Na Cidade do México que passamos a conhecer e conviver, todo mundo respira poesia. Só se fala em poesia. Só se vive poesia. Jovens e velhos. Mulheres e homens. Quando não estão vivendo a poesia, estão apaixonados. E assim são as poucas mais de 600 páginas de Detetives Selvagens. Um presente, uma carta de amor, uma loucura homenagem a nós, os que amam a literatura acima de tudo.

(Para a Revista Idéias n° 80)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Faz tempo

Quando eu era pequena, eu rezava antes de dormir e pedia para nunca mais ter insônia e pesadelos que me impediam de respirar.