Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

A síndrome do pequeno poder toma proporções excêntricas

Eu não sei separar a ficção da realidade. Quando vejo um filme de terror, fico em média três meses impossibilitada de dormir. Isso aconteceu quando vi os filmes mais bestas. A primeira vez foi quando assisti Batman, aquele com a Mulher Gato e o Pingüim. Eu tinha sete anos. Não preguei o olho durante mais de 90 dias imaginando as garras do Pingüim me arrastando para um esgoto nojento. Alguém pode argumentar dizendo que eu era muito pequena. Certo, mas quando eu tinha 19 anos eu assisti “Jogos Mortais” e toda vez que estacionava o carro na garagem, entrava em pânico achando que um cara vestido de porco ia me atacar e me prender e me torturar e, enfim, ui, não quero nem pensar nisso porque, como eu disse, não sei separar ficção de realidade.

Nem com todos esses motivos para ser julgada como uma pessoa que não sabe separar o que acontece na ficção do que acontece na vida, não tive qualquer tipo de restrição quando decidi comprar “O Estrangeiro” do Camus. Primeiro, vamos deixar claro que eu não gostei desse livro. Até aí, tudo normal. Depois, vamos filosofar a respeito da compra. Ninguém me impediu de comprar este livro que prega a violência gratuita. Opa, prega? Prega, se formos levar em conta que a passeata da maconha incentiva o uso das drogas e que o “Mein Kampf” é proibido em terras alemãs porque ____________ (insira aqui o motivo).

O que me levou a escrever sobre este assunto que ainda parece bem desconexo, mas logo seguirá sua linha de raciocínio tranquilamente, foi a notícia de que um certo jogo de computador foi proibido no Brasil porque “incentiva a violência”. Quero deixar muito claro que não gosto de jogos de computador. Isto posto, quero dizer que acho um absurdo a justiça decidir cercear a liberdade de expressão a esse ponto.

Proibir a passeata da maconha já foi ridículo, mas eu deixei passar, até porque, li vários blogueiros brasileiros defendendo o direito dos maconheiros de fazer manifestação e passeata sobre o que bem entenderem. Ora, é óbvio. Sou a favor das passeatas motivadas por quaisquer absurdos imagináveis. Sou a favor de passeatas do Ku Klux Klan. De passeatas a favor da legalização do assassinato. De passeatas a favor dos nazistas, de passeatas contra as mulheres mesmo eu sendo mulher, enfim, é aquela máxima voltairiana, tem que deixar o povo falar o que quiser. O-que-quiser. E “o que quiser” não permite restrições porque a linha que cruza a “restrição necessária” à “restrição over-reacted” e que alcança a “restrição absurda” é muito, muito tênue e não pode ser jogada para qualquer jurista imbecil decidir. A livre manifestação do pensamento é um bem precioso e deve ser tratado com muito mais cuidado do que este. Vide países em que ela não existe.

Vi um blog dizer que se o motivo de proibir a passeata da maconha era que ela estaria incentivando o uso da substância, então os manifestantes só poderiam ser acusados caso realmente tivessem praticado tal incentivo durante a “marcha”. Caso não incentivassem, tudo continuaria como sempre foi e a liberdade das pessoas estaria salva. Que é difícil de imaginar a tal marcha sem o incentivo, ô se é. Mas este não é um ponto a ser levado em consideração.

Voltando aos jogos de computador, fico estarrecida ao pensar sobre o que tudo isso implica. Proibir um jogo de computador porque ele “incentiva a violência” pressupõe que existe um ser maior (e nesse caso não é deus, e sim o juiz) que sabe julgar até mesmo as nossas consciências e tirar conclusões sobre como elas são influenciadas. Não é incrível? Freud ficaria orgulhoso. Se não se tratasse apenas daquela já conhecida “síndrome do pequeno poder”, muito famosa em países permeados por muita burocracia e justiça esquisitona baseada no politicamente correto.

Atualização: Hélio Schwartsman também acha.

1 comentários:

Maroca disse...

Também tenho uns traumas de filmes da infância. Não sei como me deixaram ver um filme, ou um pedaço dele, poderia até ser um trailler, que tem a seguinte cena: um menino de calças arreadas apanhando de chicote na lama junto aos porcos e chorando. Essa imagem nunca mais saiu de mim. Nunca assistirei Amarelo Manga.E não sei o que é liberdade. Acho que ninguém em nenhum lugar do mundo é livre pra nada.