Lendo o jornal na última quarta-feira, descubro que estava para acontecer uma manifestação dos Sem Terrinha em comemoração ao dia das crianças (!). Sugeri como pauta para o meu editor:
- Deixa eu ir, deixa eu ir, deixa eu ir, vai ser super legal!
Não sei bem qual é a minha idéia de super legal, mas no final das contas o Zé aceitou. Fechou então, rumo à passeata Sem Terrinha.
Às 14h, milhares de ônibus de escolas públicas estacionavam em frente ao Teatro Guaíra. Depois da passeata, os Sem Terrinha iriam assistir a um concerto da Orquestra Sinfônica do Paraná.
Quando me aproximei da entrada do Teatro, pude ver aquela massa de crianças muito pequenas em fila, de mãos dadas (pra não se perder, né) usando camisetinha e bonezinho dos Sem Terra. Uma grande parte delas também carregava uma bandeirinha daquelas com o símbolo do movimento. Era uma massa de coisinhas vermelhas. Bem bonitinhas.
Entrei no Teatro, as crianças corriam de lá pra cá. Algumas começavam a se ajeitar nos seus lugares. De longe, só dava pra ver os bonezinhos. Eu carregava uma máquina fotográfica e elas faziam aquela típica feição: “Tira uma foto minha, tia!”.
Lá na frente, na primeira fila a partir do palco, estavam sentadas duas amiguinhas. Cochichavam uma no ouvido da outra como só as meninas de nove anos sabem fazer (eu já soube fazer isso um dia). Cada uma delas usava: 1) camiseta MST, 2) boné MST e 3) bandeira MST. Quando cheguei mais perto, elas seguraram a bandeira na frente, posando. Fui até elas.
- Oi, posso tirar uma foto de vocês duas?
Elas aceitaram, sorridentes. Fui conversar.
- Ei, posso bater um papo com vocês e tal, sou jornalista...
Quando elas iam responder, o espetáculo começou. Tive que sair correndo. Nunca mais encontrei as menininhas. Espero que elas não tenham ficado muito decepcionadas. Bom, mas talvez tenham ficado. Eu, se fosse criança, ficaria. Lembro que uma vez uma jornalista quis me entrevistar no dia das crianças (olha, que coincidência, será que só entrevistam crianças no dia das crianças?) e eu fiquei um tempão esperando aparecer na TV e nunca apareceu. Isso foi na saudosa loja Titã de brinquedos educativos. Eles só vendiam brinquedos de madeira, meus pais hippongos achavam demais. Hoje em dia eles vendem tudo de plástico mesmo e com marca, que deve sair mais barato e vender mais.
Voltando aos comunistazinho, resolvi assistir ao concerto também. Não tenho muita paciência pra concerto (prefiro ouvir música em casa dançando na frente do espelho, jamais sentar para ouvir), quem teve paciência mesmo foi aquela massa de mais de 1.000 criancinhas de boné vermelho. Assistiam tudo bonitinho, quietinhas e aplaudiam depois. Na minha época não era assim. A gente gritava: “Começa! Começa!” e depois começava a mastigar Mentex. Os tempos mudaram.
No final do concerto, as luzes se acenderam e eu (que nesse momento já estava no segundo balcão) pude ver a massa de bonezinhos vermelhos se dirigindo à saída. Tirei algumas fotos. Ficaram engraçadas.
Desci para o hall. Era o momento das entrevistas. Eram tantas crianças, tanta distribuição de Mate Leão gratuito, tanto lanche sendo tirados dos bolsos, tanta camiseta vermelha, que o saguão ficou lotado. Tipo um acampamento. Fui ao banheiro e tive a visão mais exótica que já tive do Teatro Guaíra (e olha que trabalhei lá durante um ano e já vi até os caras do Titãs ensaiando, eles sim são exóticos). Várias criancinhas lavavam seus pés nas pias em frente aos espelhos. Não entendi, ignorei.
Voltei para o saguão. Eram tantas crianças bonitinhas e simpáticas que eu nem sabia por onde começar. Escolhi duas amiguinhas que estavam sentadas uma ao lado do outro no sofá, devorando seus lanches.
- Oi, sou jornalista, será que posso conversar com vocês?
Elas fizeram que sim com a cabeça e deram aquela risadinha tímida de menininhas de nove anos. Foi legal.
- Como é o seu nome?
- Eliana.
- E o seu?
- Eliane.
Bem, parece que Eliana é um nome comum entre eles. As Elianas eram super gracinha. Estavam na 3º série, tinham nove anos, estudavam à tarde e gostavam de lavar louça e varrer a casa. Conversei um pouco com elas e depois me despedi.
Pouco tempo depois encontrei um menininho encostado no vidro, meio cabisbaixo, borocoxô. Passei o papo jornalista nele. Ele caiu.
- Mas e aí, como é o seu nome?
- Lucas Daniel.
O Lucas tem 11 anos (parecia bem menos), está na quinta série, estuda à tarde, de manhã ajuda a tirar leite da vaca e cuidar das coisas da casa. Nas horas vagas, gosta de andar à cavalo.
Tive que me despedir, era hora de voltar para a redação. Dei uma última olhada na cenas das crianças no hall do Teatro Guaíra: algumas brincavam de lutinha de espada com as bandeiras, outras comiam sentadas debaixo da escada. Enfim, um monte de crianças.
Os Sem Terrinha são lindos. Quero adotar um pra mim.


