terça-feira, 16 de outubro de 2007

Um dia Sem Terrinha

Que eu sou sem terra, todo mundo sabe. Se não uso camiseta vermelhinha e boné é porque boné é muito verão de 2004 e vermelho não cai bem com a minha pele morenássa. Pura questão de moda e bom gosto. Porém, as coisas ficam evidentes quando se vê que: 1) eu não tenho casa, 2) muito menos terra, 3) o prédio em que eu moro bem que se assemelha a um acampamento do MST. Rola até uma coletividade. A caixa de correio é de todos: assinou a Folha de São Paulo e não foi pegar na mão do motoqueiro? Siferrô. Lá em casa já foram parar alguns exemplares. Dando sopa na caixa de correio às 10h30 da manhã? Pra mim, é de ninguém.

Lendo o jornal na última quarta-feira, descubro que estava para acontecer uma manifestação dos Sem Terrinha em comemoração ao dia das crianças (!). Sugeri como pauta para o meu editor:

- Deixa eu ir, deixa eu ir, deixa eu ir, vai ser super legal!

Não sei bem qual é a minha idéia de super legal, mas no final das contas o Zé aceitou. Fechou então, rumo à passeata Sem Terrinha.

Às 14h, milhares de ônibus de escolas públicas estacionavam em frente ao Teatro Guaíra. Depois da passeata, os Sem Terrinha iriam assistir a um concerto da Orquestra Sinfônica do Paraná.

Quando me aproximei da entrada do Teatro, pude ver aquela massa de crianças muito pequenas em fila, de mãos dadas (pra não se perder, né) usando camisetinha e bonezinho dos Sem Terra. Uma grande parte delas também carregava uma bandeirinha daquelas com o símbolo do movimento. Era uma massa de coisinhas vermelhas. Bem bonitinhas.

Entrei no Teatro, as crianças corriam de lá pra cá. Algumas começavam a se ajeitar nos seus lugares. De longe, só dava pra ver os bonezinhos. Eu carregava uma máquina fotográfica e elas faziam aquela típica feição: “Tira uma foto minha, tia!”.

Lá na frente, na primeira fila a partir do palco, estavam sentadas duas amiguinhas. Cochichavam uma no ouvido da outra como só as meninas de nove anos sabem fazer (eu já soube fazer isso um dia). Cada uma delas usava: 1) camiseta MST, 2) boné MST e 3) bandeira MST. Quando cheguei mais perto, elas seguraram a bandeira na frente, posando. Fui até elas.

- Oi, posso tirar uma foto de vocês duas?

Elas aceitaram, sorridentes. Fui conversar.

- Ei, posso bater um papo com vocês e tal, sou jornalista...

Quando elas iam responder, o espetáculo começou. Tive que sair correndo. Nunca mais encontrei as menininhas. Espero que elas não tenham ficado muito decepcionadas. Bom, mas talvez tenham ficado. Eu, se fosse criança, ficaria. Lembro que uma vez uma jornalista quis me entrevistar no dia das crianças (olha, que coincidência, será que só entrevistam crianças no dia das crianças?) e eu fiquei um tempão esperando aparecer na TV e nunca apareceu. Isso foi na saudosa loja Titã de brinquedos educativos. Eles só vendiam brinquedos de madeira, meus pais hippongos achavam demais. Hoje em dia eles vendem tudo de plástico mesmo e com marca, que deve sair mais barato e vender mais.

Voltando aos comunistazinho, resolvi assistir ao concerto também. Não tenho muita paciência pra concerto (prefiro ouvir música em casa dançando na frente do espelho, jamais sentar para ouvir), quem teve paciência mesmo foi aquela massa de mais de 1.000 criancinhas de boné vermelho. Assistiam tudo bonitinho, quietinhas e aplaudiam depois. Na minha época não era assim. A gente gritava: “Começa! Começa!” e depois começava a mastigar Mentex. Os tempos mudaram.

No final do concerto, as luzes se acenderam e eu (que nesse momento já estava no segundo balcão) pude ver a massa de bonezinhos vermelhos se dirigindo à saída. Tirei algumas fotos. Ficaram engraçadas.

Desci para o hall. Era o momento das entrevistas. Eram tantas crianças, tanta distribuição de Mate Leão gratuito, tanto lanche sendo tirados dos bolsos, tanta camiseta vermelha, que o saguão ficou lotado. Tipo um acampamento. Fui ao banheiro e tive a visão mais exótica que já tive do Teatro Guaíra (e olha que trabalhei lá durante um ano e já vi até os caras do Titãs ensaiando, eles sim são exóticos). Várias criancinhas lavavam seus pés nas pias em frente aos espelhos. Não entendi, ignorei.

Voltei para o saguão. Eram tantas crianças bonitinhas e simpáticas que eu nem sabia por onde começar. Escolhi duas amiguinhas que estavam sentadas uma ao lado do outro no sofá, devorando seus lanches.

- Oi, sou jornalista, será que posso conversar com vocês?

Elas fizeram que sim com a cabeça e deram aquela risadinha tímida de menininhas de nove anos. Foi legal.

- Como é o seu nome?

- Eliana.

- E o seu?

- Eliane.

Bem, parece que Eliana é um nome comum entre eles. As Elianas eram super gracinha. Estavam na 3º série, tinham nove anos, estudavam à tarde e gostavam de lavar louça e varrer a casa. Conversei um pouco com elas e depois me despedi.

Pouco tempo depois encontrei um menininho encostado no vidro, meio cabisbaixo, borocoxô. Passei o papo jornalista nele. Ele caiu.

- Mas e aí, como é o seu nome?

- Lucas Daniel.

O Lucas tem 11 anos (parecia bem menos), está na quinta série, estuda à tarde, de manhã ajuda a tirar leite da vaca e cuidar das coisas da casa. Nas horas vagas, gosta de andar à cavalo.

Tive que me despedir, era hora de voltar para a redação. Dei uma última olhada na cenas das crianças no hall do Teatro Guaíra: algumas brincavam de lutinha de espada com as bandeiras, outras comiam sentadas debaixo da escada. Enfim, um monte de crianças.

Os Sem Terrinha são lindos. Quero adotar um pra mim.

domingo, 14 de outubro de 2007

Olha mãe, sou eu!

Já que eu tenho só 21 anos e não apareço no jornal todo dia, acabo ficando mais feliz e metida do que devo quando vejo meu nominho por lá, sacam? Foi no O Estado do Paraná, coisa do Wilson Bueno (que está muito triste hoje e nem sei o que dizer). Dá pra ler o texto inteiro aqui.

"No final de semana dedicado a pesquisar, entre papéis velhos, algum material para a biografia que, sobre este vosso mínimo escriba, trabalha a jornalista Paola de Orte, me escapa da pasta amarrada por encardido barbante uma foto. Gira no ar, indiscernível, e indiscernível cai sobre o tapete do escritório".

O link pro texto todo tá ali em cima.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

I always keep a bottle near



Decepção: Rehab (da diva Amy) entrou na trilha sonora de Sete Pecados (novela das 19h, para os carentes de cultura inútil). Fico imaginando quem vai ser o personagem a virarasgarrafa e cheirartodas. Ah, lembrei. O pessoal que escolhe as músicas pra novela parte do princípio de que ninguém entende o que ela ta cantando mesmo, então talvez seja trilha de um casal romântico ou das crianças aprontando todas. Legal, valeuzão Globo, por tornar minha diva um fenômeno da música burra de novela e fazer com que ela toque até a exaustão, resultando em que nem eu consiga ouvi-la mais.

Não sei quem é pior: Luciano Huck ou Ferréz. Meu caro amigo, Pedro Leite, diz que pior é o Ferréz, já que o Luciano Huck deve ter feito intercâmbio nos Estados Unidos enquanto nosso amigo Ferréz só deve ter estudado em escola municipal. Daí que eu acho que fazer intercâmbio nos Estados Unidos e ainda assim ser burro é atestado de burrice ao cubo. Complicado. FicocoFerréz, que pelo menos é politicamente incorreto. Adoro.

ps. Me recuso a colocar foto da Amy com os pezinhos sangrando, o dedo inflamado, o nariz cheio de pó, os braços cortados, segurando garrafa de Jack Daniels ou com as mãos sangrando. Aqui nesse blog ela é diva.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

hoje é dia de cummings

Porque eu to mimimi.


sometimes i am alive because with
me her alert treelike body sleeps
which i will feel slowly sharpening
becoming distinct with love slowly,
who in my shoulder sinks sweetly teeth
until we shall attain the Springsmelling
intense large togethercoloured instant

the moment pleasantly frightful

when, her mouth suddenly rising, wholly
begins with mine fiercely to fool
(and from my thighs which shrug and pant
a murdering rain leapingly reaches the upward singular deepest flower which she
carries in a gesture of her hips)

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Would you let me walk down your street naked if I want to?



Chan Marshall, Cat Power, chame do que preferir. Ela é a deusa do rock. A mais bonita, sensual e junkie de todas as mulheres da música. Para se apaixonar por ela, não precisa nem ouvir a música. Mas já que estamos falando de música, aqui vai uma lista de hits absolutamente apaixonantes: Metal Heart, Still in Love, Sea of Love (é cover, mas é demais) I Don´t Blame You, Good Woman, Naked if I want to, Speak for me, Free e a clássica Cross Bones Style (o clipe também é sensacional, com direito a coreografia e fundo infinito).

Em 2006, Chan lançou um CD novo: The Greatest. Como banda de apoio, contratou a The Memphis Rhythm Band. O álbum alcançou a 34º posição da Billboard, o maior posto já alcançado pela cantora. A gata vai tocar no Brasil no final de outubro, pena que só nas edições do Rio de Janeiro e de São Paulo do Tim Festival*. Quem quiser conferir vai ver uma Chan Marshall muito diferente daquela do começo da carreira: ela parou com a bebida, com as drogas e tudo mais. Está sóbria. O que falta agora é descobrir se a mudança é pra pior ou pra melhor.

Come with me my love
To the sea
The sea of love
I want to tell you
How much I love you

* Se bem que eu vou. Ingresso comprado e tal.
(Para a Revista Idéias nº 72)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

I'm a loser baby

Alguém viu? Que ele é lóqui, todo mundo sabe. Afinal, casou com a Angélica. Mas aí a ter cara de pau de escrever um artigo para a Folha de S. Paulo reclamando do roubo do rolex. Haja cara de pau. Luciano, senta aqui que eu quero conversar.

Dear Luciano,

Vamos começar pelo título: “Pensamentos quase póstumos”. Você quer me convencer que quase morreu porque teve uma arma apontada pra cabeça enquanto dois motoqueiros pediam o relógio. Peralá, Luciano. Isso aí não é quase morrer nem aqui nem na China. Quem aqui não teve uma arma apontada pra cabeça? Ok, admito, talvez entre as pessoas que freqüentam esse blog, seja só eu mesma. Mas eu já tive. E nem por isso saio que nem um bunda mole por aí dizendo que quase morri. Quase morrer seria se te atirassem uma bala de raspão, você fosse parar na UTI, sangrasse horrores, etc. O que, cá entre nós, seria um favor pro povo brasileiro.

Agora vamos analisar o primeiro parágrafo. Aliás, a primeira frase: “Luciano Huck foi assassinado. Manchete do Jornal Nacional de ontem”. Primeiro que você se acha digno de manchete de jornal nacional. É verdade que sim, sem dúvidas, o fato seria manchete do Jornal Nacional. Mas isso porque o Jornal Nacional é podre, e se você fosse minimamente coerente, não o usaria como exemplo. Mas again, você é casado com a Angélica, então não podemos esperar muito. Só te digo uma coisa: quando o cara acha que sua morte vai ser a maior manchete do dia, ele está overreacting. E overreacting é loser. Luciano expõe ainda mais seu ótimo senso de auto-crítica quando diz que, com sua morte, não só sua mulher e seu filho cairiam na desgraça, mas deixaria também uma “multidão bastante triste”. Pas moi, vai com Deus.

Mas você não pode parar com as baboseiras. Diz que “como brasileiro”, tem pena de seus assaltantes. Entendi que você está querendo dizer que se fosse argentino, por exemplo, não teria pena. Segundo que pena de assaltante, ninguém tem. Isso é papo de Rede Globo. E você estava escrevendo pra Folha, podia ter abstraído um pouco dessa vibe Globo.

Aí vem com aquele papinho “pago todos os meus impostos”, “amo essa cidade”, “a situação está ficando indefensável”. Say what? A situação não está ficando indefensável quando alguém rouba o seu Rolex. Rolex, querido, roubam até em Paris. A idéia idiota de ter um Rolex e andar num país de terceiro mundo exibindo o reloginho foi sua.

Se você acha que está na hora de “discutir a segurança pública”, você poderia ao menos ter um motivo mais nobre. Esses dias limparam o apartamento da minha vizinha. Aliás, já limparam também a casa da minha mãe e a do meu pai. Essas pessoas é que têm o direito de discutir a segurança pública. Não você, que dá a volta na esquina e compra um Rolex novo. Dá um tempo.

Mas seu auge é quando você diz que está tentando “fazer este país mais bacana”. E afirma que faz isso através do seu programa na TV e da ONG que mantém. Todo mundo sabe que ONG é coisa de celebridade querendo fazer média com o público. E aí a dizer que o seu programa na TV é um programa social, olha, tudo o que eu tenho a dizer é que pedir pra fulaninho da silva da favela do morro do sei lá acertar a bolinha na boca do palhaço e ganhar uma grana da Rede Globo depois não é ajuda nenhuma. Até o Netinho fazia melhor. E o Silvio Santos, que pelo menos pagava uma grana um pouco mais decente nos seus programas de auditório.

Você ainda diz que não está preocupado com o Rolex, mas sim com o fato de que dirigiu toda a sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado... só faltou dizer que a Tiazinha, a Feiticeira e a Dani Bananinha são peças essenciais nessa conquista. Ah Luciano, sabe o que? Sono.

E last but not least, sobre você achar que o salvador da pátria poderia ser o Mano Brown, eu diria não apenas sono, mas por favor, um coma eterno.

One word for you: babaca.