
Nina agarrou as minhas costas e soltou um grito desesperado “Muiuiuauuuuuuuuuuuuuuu”. Eu soltei o meu em coro com o dela: “Ai, Nina, sua puta, larga as minhas costas!”.
A Nina jamais sai de casa. Tem um pavor ridículo da rua. Nem parece um gato. Você imagina que vai ter um gato e que vai ter que manter todas as portas trancadas 100% do tempo para ele não fugir e quando vê tem nas mãos uma gata medrosa, que mia o dia inteiro de saudades das terras catarinenses daonde veio (ou sabe deus do que, porque nunca conheceu nada na vida, nem gato macho, nem outra casa além da minha e daquela em Joinville) e não ousa colocar as patinhas pra lá da porta de entrada. Uma brincadeira legal: jogar a Nina no corredor que fica entre a minha porta e a do vizinho e ver ela correndo para dentro de casa como se tivesse acabado de ser assaltada.
Resolvi levá-la para ver um veterinário. Miava o dia inteiro, a gata. E a não ser que o cio dela dure 29 de 30 dias por mês, alguma coisa estava errada.
“Mulher pode chorar quando não tem homem né, aí é só a gatinha miar uns dias pra levar porrada e xingão. Coitada”. Não lembro bem quem disse isso, mas foi alguém muito esperto, com certeza.
Descer as escadas do meu prédio já foi um grande sacrifício. De certo a Nina achava que eu ia largar ela no meio da rua (se soubesse o que era uma rua). Se agarrava às minhas costas, fincando suas unhas compridas não-aparadas (culpa minha) e miava em desespero. Agonia. Horror. O miado dela ressoava pelas paredes do prédio. “Miuiuiuiauuuuuuiiiiiiiii”. Eu, gritando junto enquanto ela estraçalhava as minhas costas com as unhas: “Ai, Nina, sua puta, larga as minhas costas!”.
O caminho no carro foi para a Nina o corredor da morte. Escondidinha debaixo do banco do passageiro, ela miava baixinho. Tristeza inconsolável. “Miuiuiuiu”.
Chegando no Hospital Veterinário da UFPR, fui interrogada durante uns 10 minutos sobre o porquê de ter perdido a carteirinha de vacinação da gata. Perdi porque perdi. “Mas tem que trazer. É importante. Agora vamos ter que fazer outra”. Respondi a um questionário infinito enquanto Nina descontava sua falta de sexo nas minhas costas.
- Nome?
- Meu ou da gata? Aiiii, Nina!
- Da gata.
- Nina Simone. Ai, sua puta, larga as minhas costas!
Esperamos pacientemente sentadas ao lado de um cãozinho de madame a vez de sermos atendidas. Ela já havia soltado metade dos pelos do corpo no meu vestido preto. Eu já não era mais a jovenzinha vaidosa. Era uma louca coberta de pelos segurando um gato que fincava as unhas nos meus braços.
- Nina Simone?
Era a vez dela. Fomos para a sala de atendimento. Logo que entrei, larguei a Nina no chão, que correu se esconder debaixo da mesa, num vão impossível.
Duas estagiárias me fizeram toda sorte de perguntas imbecis.
- Ela está machucada?
- Não. Ela só chora o dia inteiro.
- Alguma secreção estranha?
- Ela só chora o dia inteiro, é só isso.
- Notou algum comportamento estranho?
- Ela chora. Chora demais.
Colocaram a gatinha numa mesa de metal. Apertaram a barriga dela. Pesaram. Olharam os dentes.
- É, parece que ela está bem.
Bem, não, ela está chorando, eu já disse. As estagiárias resolveram chamar a veterinária chefe para ver o que poderiam fazer. Depois de algum tempo, voltaram, acompanhadas da veterinária e de mais uma estagiária (aparentemente, essa tinha um gato em casa).
- Sua gata está em perfeita saúde.
Já sei.
- Bom, pensamos muito e chegamos à conclusão de que o que você pode fazer é mudar para um apartamento maior.
Entendi. Gato chora = mudar para um apartamento maior. Sem dúvida. Resolvi me limitar a um:
- Uhum.
- Ou então, você poderia comprar um gato para fazer companhia para ela.
Para que acasalem e a partir daí eu tenha não apenas um, mas uma família de gatos chorando em casa. Bela idéia.
- Sei.
- Minha última sugestão é mandar a Nina para a acupuntura. Tem uma veterinária aqui no Hospital que faz acupuntura em animais. Eles costumam sair bem mais calmos. Também podemos te receitar uns remédios homeopáticos. Uns florais, pra você colocar na água dela.
Sei. Claro. Por último, aquele gênio da veterinária me sugeriu que eu comprasse uma ração mais cara. Tive vontade de perguntar se o marido dela a levava para jantar no Île de France cada vez que ela tinha dor de cabeça. Mas resolvi com um simples:
- Obrigada. Até mais.
Paguei os R$ 30,00 para a velha da recepção, com a certeza nítida de que estava escrito na minha testa: “TROUXA”.
Que idéia imbecil.
Fui dar o nome do gato de Nina Simone e depois me pergunto sem nenhuma vergonha na cara por que ela chora tanto.