sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Tratado sobre o (mau) gosto

Gosto não se discute porque não chega a lugar nenhum. Não porque não é uma ciência objetiva. O gosto é uma ciência muito objetiva, há que se ficar claro. Entre pessoas com um mínimo de coerência, não deveria nem ser colocada em discussão a questão do que “é bom” e do que “não é bom”. É subentendido. Todos sabem o que é bom e o que não é. Se você é trouxa de querer incluir algo ruim entre as coisas obviamente boas do mundo, então já está dito: você não é um espécime raro que entende mais de arrrte do que os outros. Você é apenas trouxa.

Que fique bem claro: ninguém aqui é obrigado a ter bom gosto 100% do tempo. Eu por exemplo, tenho um mau gosto do caralho. E nem tenho como esconder.

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Muda muito o fato de eu olhar as horas no computador ou no rádio relógio do criado mudo. No rádio relógio é 12h10. No computador, 00h12. No computador, são os últimos minutos do dia 30 de agosto. No rádio, os primeiros do dia 31. O que importa é: agosto, já vai tarde!

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Sabe aquela propaganda do “não tem cara de tiozão?”. Tem cara de tiozão sim. Que idéia idiota que tentam empurrar goela abaixo dos tiozões babões desse mundo. Tiozões, unite: compre um Nissan, coma quem quiser, seja feliz, vai.

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Existe uma outra campanha para vender um outro carro japonês (oh!) que diz que para cada carro vendido, eles devem plantar cinco árvores. Pergunta: como funciona o plantio? Cada vez que um carro é vendido, o vendedor liga para um fazendeiro e autoriza a plantação de mais cinco árvores? O Zé tá lá fumando o seu cigarro de palha e recebe a ligação: “Ei, Zé, planta mais cinco árvores!”, aí o Zé fica puto com o Doutor na cidade que comprou um carro e atrapalhou a tarde tranqüila dele. Ou então será que eles fazem uma contabilidade no final do mês para saber quantos carros foram vendidos e multiplicam pelo número de árvores que devem ser plantadas? Mas aí é injusto, quem compra o carro está esperando que a árvore seja plantada na hora. Ou será que alguém realmente se importa com as cinco árvores plantadas? Esse tipo de apelação ao coração politicamente correto e preocupado com o mundo atual dos hommes-moyen existe de verdade?

Existe um contador que conta quantas árvores foram plantadas em relação ao número de carros vendidos?

Anyways, quem garante que as cinco árvores serão plantadas?

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E last but not least: Íris Stefanelli na capa da Playboy é mau gosto. Modigliani, bom gosto.



sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Do you feel better?



Ah, Regina Spektor. Uma filha que qualquer mãe gostaria de ter. Ela toca piano, é uma boa moça e se alimenta bem (pelo menos é o que parece). Muito mais do que isso: Regina é uma das cantoras mais legais entre as nova-iorquinas atuais. Ela nasceu em Moscou, na Rússia. Mas já com 9 anos foi para a big apple com a família. Família de músicos, diga-se de passagem. Seu pai é fotógrafo e violinista amateur. A mãe, professora de música.

Regina começou lançando álbuns independentes, mas o primeiro pela gravadora Sire veio em 2004. Soviet Kitsch já traz um grande clássico entre os fãs da russa: Us. Regina fala de amores românticos, nada de modernices embriagadas. O negócio dela é sofrer e amar como as mocinhas do começo do século passado faziam. Mas a obra prima veio mesmo em 2006, com Begin to Hope. O disco é cheio de músicas para cantar junto fazendo cara de amor perdido: Fidelity, Better, Samsom, On The Radio, todas são maravilhosas. A voz encantadora e o pianinho, infalíveis.

(Para a Revista Idéias nº 70)

Ps. Fui ver a mocinha tocar em Sheffield em fevereiro deste ano. André Moreira, um amigão que mora em Londres, me acompanhou. No começo do show, ele disse: "Meu deus, que baranga!". No final, já queria pedir ela em casamento. Ela é muito linda. E simpática. E querida. E gordinha, mas mesmo assim, linda.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Continua lindo

No Rio de Janeiro faz calor (tenho certeza).

No Rio de Janeiro tem os molequinhos que falam “Hey Mister!” mesmo eu sendo morenaça da cor deles, só porque eu uso óculos grandes e amarelos.

No Rio de Janeiro, ninguém fala oi, eles falam “Aí!”.

No Rio de Janeiro, a água de côco é super inflacionada.

No Rio de Janeiro, o mar é gostoso, a vista é bonita, e tem queijo coalho pra comer na praia.

No Rio de Janeiro tem livrarias enormes, lindas e cheias de coisas que nem se sonha em Curitiba, a cada esquina.

A Chan Marshall vai pra lá em outubro. A Feist também. A Björk, o Arctic Monkeys, o Hot Chip, o Killers e a Juliette Lewis . Ah, eu também vou!

Quem quiser ir com a gente pode se candidatar aí, é só deixar um comentário.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

A Salvação custa caro

Quando chegou o momento que meu pai considerou propício para que eu virasse uma mocinha, ele me passou seu primeiro ensinamento: não acredite em Deus.

O segundo ensinamento era: escute David Bowie.

Não segui o segundo ensinamento (perdão).

(Talvez meu pai tenha achado que o terceiro ensinamento, aquele das cegonhas, era meio ultrapassado para uma mocinha tão modernetes e século XXI quanto eu).

Mas o primeiro segui a risca: criei uma aversão enorme e gigantesca a deus e principalmente a qualquer coisa vinda da Igreja Católica.

Veio da Igreja, é do mal.

E não é novidade para ninguém que eu seja uma pessoa meio cheia de pré-conceitos, pouco disposta a desfazê-los.

Acontece que essa semana, pela primeira vez, me compadeci, pelo menos um pouco, da Igreja que me batizou com poucos meses e depois de novo, com 10 anos (uma longa história sobre um padre hippie que meu tio chamou para nos batizar, eu e Manoela, mas que não era registrado pela Igreja e não me deu certificado de batismo).

Vi as notícias sobre a bispa Sônia e o apóstolo Estevam Hernandes.

Putaria, viu. Os caras tinham mais dinheiro que o Abadia. (Ou não, só estou tendo uma over reaction para parecer plus grave).

Sempre achei que a Igreja Católica era uma grande exploradora de pessoas ingênuas e inseguras e agora entendi que o que o catolicismo faz é fichinha perto desses monstros loucos por dinheiro. Daonde vem essa vontade absurda de tanto dinheiro? O que fazer com tanto dinheiro? Será que não tem como conseguir grana sem roubar milhões de reais de gente carente de atenção?

Não consigo imaginar um padre da Paróquia do Guabirotuba enriquecendo às custas dos fiéis. Eu fui em algumas (poucas) missas na minha vida, e sei muito bem que quando eles passam a caixinha, pouquiíssima gente dá dinheiro e quando dá, é R$ 1,00, R$2,00. No máximo R$ 10,00.

Na Renascer em Cristo as pessoas doam salários. Carros. Alianças de casamento.

Pobres padres. Se um dia a Igreja Católica conseguiu extorquir dinheiro da população vendendo terreninho no céu, hoje é só mais um mendigo pedindo esmola pros passantes. Ah, e governados por um cara sentado na grana com cara de monstro de filme do Fritz Lang.

E eles nem podem trepar.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

e e cummings

the boys i mean are not refined
they go with girls who buck and bite
they do not give a fuck for luck
they hump them thirteen times a night

one hangs a hat upon her tit
one carves a cross on her behind
they do not give a shit for wit
the boys i mean are not refined

they come with girls who bite and buck
who cannot read and cannot write
who laugh like they would fall apart
and masturbate with dynamite

the boys i mean are not refined
they cannot chat of that and this
they do not give a fart for art
they kill like you would take a piss

they speak whatever's on their mind
they do whatever's in their pants
the boys i mean are not refined
they shake the mountains when they dance

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Berinjelas voam pelas janelas

Paola: Não sei, esse negócio de declamação de poesia é meio estranho, né?

Marcio: É, estranho é... eu fui lá ver algumas vezes... o cara toma um gole, briga com a namorada... aí escreve uns rabiscos num papel, sobe no palco e declama a porcaria que acabou de escrever.

Paola: Meio deprimente.

Marcio: É.

Paola: Mas talvez seja válido, bom, sei lá, esses poetas...

Marcio: É, é interessante... eles poderiam estar roubando, matando....

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Lover, should have come over...



Jeff Buckley foi um cara que sofreu. Sofreu horrores. Aí sofreu tanto que a morte resolveu se vingar do cara eternamente sofredor e o matou num acidente de barco, enquanto o coitado sofria nadando no rio Mississipi. Em maio deste ano completaram-se dez anos desde que Jeff Buckley morreu no trágico acidente e desde então ele já foi homenageado por tudo quanto é tipo de músico, desde Aimee Mann, PJ Harvey e até... Paulinho Moska. E olha que antes de morrer ele só tinha lançado um único álbum: Grace.

Grace é o álbum perfeito para homens sofrendo por suas mulheres amadas. Jeff sofre como nunca. Na terceira faixa do disco, Last Goodbye, ele se despede da amada pela última vez. Em So Real, Jeff mostra o seu lado tipicamente masculino quando diz: I love you, but I´m afraid to love you (Eu te amo, mas tenho medo de te amar). Mas a melhor música do disco para aquele momento ao lado da lareira, segurando uma garrafa de vinho e chorando a morte da bezerra é, sem dúvida, Lover, You should´ve come over. A música inteira é melodramática ao extremo, mas algumas partes podem fazer até as mulheres sentirem vontade de emprestar um ombrinho para este machão indeciso: ele promete todo o seu reino em troca de um beijo no ombro da amada, todo o seu sangue pelo sorriso dela e diz que ela é a lágrima que mora dentro da sua alma para sempre. Ah, tá bom, vai, Jeff. Independente se você acredita que ele sofreu tanto assim ou se só queria conquistar mais mulheres fazendo músicas pega-mulher do tipo, não há ser do sexo feminino que não se derreta quando ele diz com a vozinha sofredora: Lover, You should´ve come over...

(Para a Revista Idéias nº 69)