
Então Deus falou com o peixe; e da frieza tiritante e do negrume do mar a baleia subiu na direção do agradável e caloroso sol, e de todas as delícias do ar e da terra, e 'vomitou Jonas na terra firme': quando a palavra do Senhor veio pela segunda vez; e Jonas, alquebrado e abatido - seus ouvidos, como duas conchas do mar ainda ressoando o inumerável murmúrio do oceano -, Jonas cumpriu as ordens do Todo-Poderoso. E qual era a ordem, companheiros de bordo? Pregar a Verdade diante da Falsidade! Isso mesmo!
Sábado, 7 de Fevereiro de 2009
Ai de quem, como diz o grande Piloto Paulo, prega aos outros ao mesmo tempo em que também está perdido
Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2009
Promessas para 2009
A primeira promessa que eu fiz ao adentrar o novo ano foi que voltarei a fumar em 2009. Se tem uma coisa de que tenho horror é o discurso anti-tabagista. O pior é que larguei o cigarro. Perdi a vontade, nem sei explicar. Muita gente ainda vem conversar comigo e fala "Mas por que você não larga o cigarro?". Eu dou risada. Nem percebem, coitados, que eu já parei de fumar faz tempo.
E minha saúde não melhorou não. Desde que parei de fumar, minha respiração piorou umas 100 vezes. O pior é quando escuto que para abrir os brônquios do pulmão, devo parar de fumar. Olha, já estou convencida do contrário. Eu tenho mais é que voltar a fumar, senão a minha saúde (e o meu pulmão) vão pro saco.
Aí vocês perguntam: mas por que, Paola, você parou de fumar? Aí é que está. Não foi de propósito. Eu simplesmente perdi a vontade. E isso aconteceu porque nunca fui viciada em cigarro, ao contrário do que muitos podem acreditar. Ah, sim, porque o discurso tabagista tem como premissa principal o dogma de que toda pessoa que fuma é viciada. Imbecis. Nunca fui, tanto é que já faz quase um ano que parei e não sinto falta. Pelo contrário, gostaria é de poder sentir falta, e voltar a fumar, e emagrecer sentada, com as pernas pro ar, sem precisar nadar 1.800 metros, em água suja, três vezes por semana. Não sabiam vocês que cigarro, além de tudo, emagrece?
Aí vem o cretino e diz: "Mas você não é viciada porque começou faz pouco tempo". Meu bem, comecei há exatos dez anos, num belo verão no Rio de Janeiro. Se dez anos não for suficiente para viciar o que pode ser viciado, então não sei do que você está falando. O pessoal acha, hoje, que cigarro é como crack. Que a Philip Morris é o traficante malvado dos tempos modernos. Não é. E nem adianta: não vou perder tempo respondendo quem perguntar se então eu quero dizer que cigarro não vicia. Não sejam assim. Tudo pode viciar. O cara do Arquivo X não é viciado em sexo? Quer estupidez maior? Aí vem nego e diz que sexo vicia. Tá certo. Só é complicado de entender por que a população de um planeta com seis bilhões de pessoas atualmente vem praticando o sexo desde que surgiu na face da Terra e só agora inventaram que tal prática vicia. E chocolate, vicia? E coca-cola? Eu, particulamente, tenho meus pequenos vícios. Não conto por aqui porque não vou facilitar a ação dos inimigos. Os inimigos, para eles, deixo a idéia de que sou viciada em cigarro. Ha. Que piada.
Ontem, ao passear pela praia logo depois da meia-noite, me deparei com algumas figuras esquisitas. Um grupo de homens malhados vestidos de branco falavam sobre o dedo que o Lula perdeu. Olha, pelo amor de Deus, sabe? Seis anos novos se passaram e esse assunto ainda não esgotou tudo o que tinha pra ser esgotado? Outro papo que ouvi pelo caminho foi de uma senhora, um pouco mais velha, que gritou aos meus ouvidos, já bêbada de espumante barato, que em 2009, a primeira promessa que iria cumprir seria parar de fumar.
Ai, que tédio.
Eu, Paola De Orte, prometo que, em 2009:
— Voltarei a fumar.
Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008
Eu, Michael Phelps

Você sabe que está tomando as decisões erradas quando o Youtube acha que uma boa sugestão de vídeo para você assistir é um que mostra como virar na borda da piscina depois de 25 metros de crawl livre.
Domingo, 30 de Novembro de 2008
Bohemia

Authors and actors and artists and such
Never know nothing, and never know much.
Sculptors and singers and those of their kidney
Tell their affairs from Seattle to Sydney.
Playwrights and poets and such horses' necks
Start off from anywhere, end up at sex.
Diarists, critics, and similar roe
Never say nothing, and never say no.
People Who Do Things exceed my endurance;
God, for a man that solicits insurance!
Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008
A arte contemporânea deixa o mundo idiota
Não é que eu deva dar bola para jovens, nem que eu deva pensar "ah, mas eles são tão jovens e idiotas" ou então, eu sei, alguém vai levantar a mão e dizer "querida, não se importe com isso, sente-se para um chá", mas é que sempre surgem uns problemas urgentes e eu penso que devo dar o ar de desabafar um pouco com vocês, fellow readers.
Eu não sei se o mais ridículo é a Bienal deixar um andar vazio e chamar de "protesto" ou se são os stickers que, efetivamente, protestaram colando, ãhn, stickers, ou se são os pixadores. Pixadores me dão sono. No dia em que pixação for sinal de protesto, avisem. Por enquanto, é sinal de retardo.
E esse negócio de "bienal do vazio"? Protestando contra a falta de dinheiro para a bienal? Nunca vi dessa, agora pobre tem orgulho de ser pobre, quer mostrar e pede esmola em rede nacional. Deve ser ótimo ser o curador da bienal e mostrar para todo o Brasil o quão estúpido e incapaz de conseguir verbas você é. Thanks, man. Você é demais. Estou feliz que meus impostos não foram gastos com você, espèce d'imbecile.
Outra coisa, qualé a dessa história de chamar tudo o que é arte "mais ou menos" de "arte urbana"? Será que alguém pode, de uma vez por todas, me dizer qual é o contrário de "arte urbana"? Seria ela a "arte caipira", a "arte do interior", a "arte fugere urbem"?
Se é pra avacalhar de uma vez, vamos dizer que tudo que é podre está englobado na arte urbana. Então, Lygia Clark é arte urbana. E seus globos terrestres com perucas. E olha que essa obra nem é dela. Tanto faz, é tudo igual. Raso, medíocre e sem objetivo.
E para que ninguém saia desse blog sem o "pensamento profundo do dia", deixo com vocês esta maravilhosa frase da "artista plástica" Ana Maria Tavares.
- O Vazio é apenas ilusório.
Nunca alguém resumiu tudo em tão pouco. Ana Maria, eu também espero que tudo isso não passe de uma ilusão. Embora, certamente, não nos mesmos termos que você.
Domingo, 5 de Outubro de 2008
Deixem a ficção em paz só um pouquinho faz favor

Dizer que o politicamente correto já deu o que tinha que dar também já deu o que tinha que dar. Não há mais quem agüente esse negócio de não poder falar nada, de não poder chamar as pessoas pela cor que elas tem, pelo sexo que elas gostam, de não poder fumar um cigarro em paz, enfim. Aliás, virou até moda branco dizer “e xingar alguém de branco pode, né?”. É meu filho, pára de ser ridículo também que nem é esse o caso.
O que me deixou “de cara” (uma expressão mega-curitibana, enfim) agora foi essa história dos cegos protestando contra o Ensaio sobre a Cegueira nos Estados Unidos. Agora parece que o politicamente correto além de acabar com a falta de noção das pessoas também acabou com a capacidade de interpretação delas.
O presidente da Associação dos Cegos, ou qualquer coisa assim, lá nos USA, já declarou que o filme vê os cegos como monstros. Oi? Dá pra aprender a ler as coisas menos ao pé da letra? A entender metáfora? A se dar ao trabalho de interpretar? A, não sei, quem sabe levar as coisas um pouco mais a sério e enxergar menos a humanidade como pequenos microcosmos muito diferentes um do outro e egoístas ao extremo, incapazes de enxergar qualquer outro ponto a ser defensável que não o seu?
Daqui a pouco eles proíbem coisas do tipo “em terra de cego, quem tem um olho é rei” porque esse ditado quer dizer que os cegos são burros e não sabem votar e olha, façam-me o favor, não tornem o mundo mais chato do que ele já é ou eu vou ter que começar a campanha aqui, Campanha de Incentivo às Mulheres Meio Morenas Meio Brancas Sem Cor Definida Com Hiperlordose Nas Costas Que Têm Cabelo Pichaim Porém Disfarçam Com Pranchinha.
Não há quem agüente esse mundo. That’s it, I´m moving to Canada.
Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008
James Joyce, o herói do século XX

Há motivos para amar James Joyce. Eles não são poucos. Pior: há quem diga que os motivos para amar Joyce são puramente lingüísticos. Porque Joyce reinventou a linguagem literária, como se reinventar a linguagem fosse motivo suficiente para você ser o maior gênio de todo um século. Um século pouco prolífico no sentido de produzir gênios, mas ainda assim.
A linguagem de Ulisses é genial. A cada capítulo, uma nova forma narrativa. São 22 maneiras de contar trechos da história do simplório Leopold Bloom, que passa a peregrinar pela cidade de Dublin afim de não ficar em casa para assistir o desastre eminente: sua esposa, Molly, está prestes a traí-lo. Leopold passa o dia fazendo as coisas mais comuns, que homens mais comuns fazem, e ainda termina por se encontrar com o amigo intelectualóide homeless Stephen Dedalus. Os dois vão para um bordel e enchem a cara, etc, coisas que homens fazem.
A história de Ulysses também não parece ter os elementos mais inovadores da ficção ocidental. Ela nem ao menos termina. O que acontece com Bloom? Ele perdoa Molly? Stephen encontra uma casa para morar? Vai acabar morando com Leopold e Molly?
Não sabemos. Todos os acontecimentos reais ficam envoltos numa névoa em que fica claro que Joyce pensava que, você, leitor, não precisa saber de nada disso. “Não seja mundano e mesquinho a este ponto”, diria.
O segredo de Ulysses é a perfeita transcrição do espírito dos homens. Sim, o espírito dos homens, não acompanhado do clichê “o espírito dos homens de uma época”. Os sentimentos, os amores, as dores, os ciúmes, as humilhações sentidas, as preocupações banais, os prazeres estúpidos, os segredos escondidos são tão humanos que não podem ter sido inventados no século XX. Eles nasceram com a humanidade. Ou melhor, com a humanidade, desde que esta resolveu tornar-se civilização e misturar sentimentos nobres com os esdrúxulos.
É a sensação de que todos os homens são parecidos, desde os intelectuais aos estúpidos, desde os antigos até os do século XXI, que mais espanta. Se Joyce terminou de escrever a obra-prima em 1921, digamos que já fazem 90 anos. Quase um século de humanidade e nada mudou. Uma prova? Leia o trecho a seguir, em que Leopold Bloom divaga sobre o que faria caso pudesse tomar o poder político um dia:
“A escolta de Bloom distribui os óbulos da Quinta-feira Santa, medalhas comemorativas, pães e peixes, insígnias da sociedade de temperança, charutos caros Henry Clay, ossos grátis para fazer sopa, preservativos de borracha em envelopes selados atados com fio dourado, caramelo, caramelos de abacaxi, billets-doux sob a forma de chapéu de bicos, ternos confeccionados, papas de carne assada, garrafas de desinfetante Jeyes, selos para compras, indulgências de 40 dias, moedas falsas, salsichas de porco alimentado em leiteria, passes de teatro, bilhetes da estação válidos para todas as linhas de bonde, cupons da loteria húngara real e privilegiada, fichas de um penny dando direito a um jantar gratuito”
Por acaso os nossos governantes atuais não achariam “simplesmente divino” distribuir exatamente os mesmos objetos citados cima? A política não mudou nada em quase um século? Se não está convencido, dê uma olhada na lista de livros de edições baratas que Bloom pretende distribuir para o povo, a que se refere como os “Doze Piores Livros do Mundo”:
“Froggy e Fritz (político), Proteção do Bebê (infantil), 50 refeições por 7/6 (culinário), Foi Jesus um Mito do Sol (histórico), Expelir Aquela Dor (medicinal), Compêndio do Universo do Infante (cósmico), Vamos Todos Rir à Socapa (hilário), Manual do Publicitário (jornalístico), Cartas de Amor da Mãe Assistente (erótico), Quem É Quem no Espaço (astronômico), Canções que Atingiram Nosso Coração (melódico), Maneira Econômica de Alcançar a Fortuna (parcimonioso)”
Alguma coisa em comum com as maravilhas literárias com as quais somos obrigados a nos deparar nas livrarias da vida?
Ah, a humanidade. Não pára de nos surpreender.
(Para a Revista Idéias n° 83)
Terça-feira, 16 de Setembro de 2008
Rapsódia no azul

Quando eu era pequena, menor do que sou hoje em dia (apesar de ainda muito pequena), meu pai me levava para o balé toda semana. Digo mais: mais do que uma vez por semana. Calma, pessoal. Não havíamos desenvolvido nenhuma obsessão louca por titis.
É que minha madrasta é bailarina.
Tenho algumas lembranças dessa época pré-adolescente. Uma delas é que eu sabia todos os corredores do Teatro Guaíra de cor, que meu pai sempre comprava Mentex antes de começar o balé e durante os intervalos, que eu sonhava em ser também uma bailarina dançando nas escadas douradas e tapetes vermelhos do Guaíra, que antes de começar a apresentação a campainha tocava três vezes, uma vez a cada quinze minutos, e que meu pai ficava muito bravo quando eu dormia durante a apresentação. Ô, não me julgue, você já foi assistir à mesma peça seis vezes?
Costumávamos assistir ao mesmo balé uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Alguns assisti mais. Outros eu conhecia todos os passos decorados.
Lembro que uma época começaram a apresentar um balé cuja coreografia moderna consistia em várias bailarinas de macacão que vinham correndo até o meio do palco e quando chegavam, se jogavam no chão. Puf. Boa parte do balé era assim, e me lembro da Regina contando que os seus ombros estavam sempre roxos de tanto se jogar contra o chão.
Eu adorava a música que tocava. Ficava lá fora, nos tapetes vermelhos, comendo Mentex, pulando, tropeçando as pernas, fazendo demi plié, os braços curvados pra cima, tentando ficar na ponta do pés usando tênis Bubblegummers.
Um dia, perguntei o nome da música. Era Rhapsody in Blue, do George Gershwin.
Cara, se você não sabe do que eu estou falando, não perca mais tempo nessa vida:
Ou então assista ao novo e maravilhoso, estupendo, inigualável e excepcional desfile do Marc Jacobs, cuja interpretação, aliás, se parece muito mais com a da minha infância.
Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008
The Labyrinth

Anthropos apteros for days
Walked whistling round and round the Maze,
Relying happily upon
His temperment for getting on.
The hundreth time he sighted, though,
A bush he left an hour ago,
He halted where four alleys crossed,
And recognized that he was lost.
"Where am I?" Metaphysics says
No question can be asked unless
It has an answer, so I can
Assume this maze has got a plan.
If theologians are correct,
A Plan implies an Architect:
A God-built maze would be, I'm sure,
The Universe in minature.
Are data from the world of Sense,
In that case, valid evidence?
What in the universe I know
Can give directions how to go?
All Mathematics would suggest
A steady straight line as the best,
But left and right alternately
Is consonant with History.
Aesthetics, though, believes all Art
Intends to gratify the heart:
Rejecting disciplines like these,
Must I, then, go which way I please?
Such reasoning is only true
If we accept the classic view,
Which we have no right to assert,
According to the Introvert.
His absolute pre-supposition
Is - Man creates his own condition:
This maze was not divinely built,
But is secreted by my guilt.
The centre that I cannot find
Is known to my unconscious Mind;
I have no reason to despair
Because I am already there.
My problem is how not to will;
They move most quickly who stand still;
I'm only lost until I see
I'm lost because I want to be.
If this should fail, perhaps I should,
As certain educators would,
Content myself with the conclusion;
In theory there is no solution.
All statements about what I feel,
Like I-am-lost, are quite unreal:
My knowledge ends where it began;
A hedge is taller than a man."
Anthropos apteros, perplexed
To know which turning to take next,
Looked up and wished he were a bird
To whom such doubts must seem absurd.
Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008
Só para quem tem colhões

Bem, é claro que eu não tenho. Ara Abrahamavian é quem tem. Não gostou de ter levado a medalha de bronze. Achou que foi injustiçado. Que o juiz mandou mal, podemos dizer. O cara é atleta de "luta greco-romana", que já é o esporte mais legal, só pelo nome.
"Eu não me importo com esta medalha. Eu queria o ouro" . Tá certo. Quem quer menos do que o ouro é trouxa. Aliás, não existe slogan pior do que o clássico entre os losers "O importante é competir". Não é. O importante é ganhar.
E é por isso que eu não me inscrevo em nenhuma competição.
“Esta será a minha última luta. Eu queria o ouro, mas agora considero esta Olimpíada um fracasso”
É um fracasso mesmo. Aliás, eu odeio esportes em geral. Qualquer tipo. Nataçãojudôfutebolbasquetevôleijogaravópelajanela, pra mim é tudo a mesma coisa. É que nem sonífero. Começa aquela narração lenta: "Fulano de tal passa a bola para". Meu, que fulano de tal, que bola? O que é uma bola? Por que eu me importaria com a capacidade de outras pessoas que não eu em manejar suas bolas? Não entendo torcer. Não entendo torcida. Não entendo nada disso, e sei que é porque eu sou mala.
Mas isso nem vem ao caso.
Olha, cena boa mesmo na Olimpíadas não foi Michael Phelps, Daiane Mala dos Santos nem nada. Foi Ara Abrahamavian tacando a medalha no chão. Ora, tá certo. Eu também jogaria. E também acho todo mundo que não concorda comigo um fracasso.
Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008
Keats and Yeats are always on my side

Minha vovó, dona Lydia, me ligou nesta agradável tarde de trabalho e me lembrou que nunca é tarde demais para ser romântica.
- Como é mesmo o nome daquele poema do Yeats que você gosta? Acho que é o mesmo que eu gostei!
Fellow readers, compartilho.
He Wishes for the Cloths of Heaven
Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008
Sábado, 2 de Agosto de 2008
A eterna reinvenção da literatura

Não é apenas sobre pensar se tudo já foi dito sobre o amor, mas sobre chegar à conclusão de que tudo não pode ter sido dito porque a sua história, leitor, ainda não foi escrita.
É besteira dizer que tudo já foi feito. Se os grandes escritores pensassem assim, Adolfo Bioy Casares nunca teria escrito A Invenção de Morel, no ano de 1940, época em que certamente já se repetia à exaustão o bordão: “Na literatura, nada é novo”.
Em A Invenção de Morel, tudo é novo, isso fica claro se pensarmos que o livro passou a figurar em todas as listas de melhores livros de ficção do século XX.
Mas quem somos nós para julgarmos o século XX, se nascemos nele?
(Com exceção de você, criança semi-alfabetizada que parou por aqui sem querer. E se parou e está lendo, meus parabéns, talvez você se torne um grande escritor um dia e possa chutar a cara de todos esses imbecis que dizem que é impossível inventar alguma coisa nova só para poder justificar toda sua obra pastiche).
Sabemos que julgar a nossa história muito de perto é besteira. Só o tempo pode julgar certos acontecimentos e a maior parte da nossa literatura.
Entretanto, se eu pudesse fazer uma aposta, diria que a Invenção de Morel ficará na história da literatura por muito e muito tempo.
E pensar que no mesmo ano foram escritos O Deserto dos Tártaros, do Dino Buzatti, e O Coração é um caçador solitário, da Carson McCullers. Coincidentemente, dois livros previamente revisados nesta publicação.
Aí você pode dizer, claro, mas talvez 1940 tenha sido apenas um ano especial para a literatura.
Bom, em 1939, um pouquinho antes, foram lançados As Vinhas da Ira, do John Steinbeck, e Finnegan’s Wake, do James Joyce. Então ficamos acordados que não foi tudo uma grande coincidência?
É fato que a humanidade pareça estar sempre em decadência, mas eu aposto minhas fichas que neste momento, caminha por aí o novo gênio, perturbado com a atual situação na literatura, mas bolando uma maneira de mandar o seu aviso. Ele diz: “Ei galera, vai ficar tudo bem”.
Vamos voltar ao Bioy Casares.
A Invenção de Morel não é apenas mais uma história de amor, mesmo que os sentimentos sejam os mesmos, que os ciúmes, a loucura, a ilusão, e tudo o que é ancestral e passional esteja contido nele.
A genialidade da narrativa e o desfecho da história do amor do escritor venezuelano por Faustine é que tornam essa história única. Não é à toa que Jorge Luis Borges, amigo de Bioy Casares, ao ler a novela, afirmou que não lhe parecia uma imprecisão ou uma hipérbole qualificá-la como perfeita.
(Para a Revista Idéias n° 81)
Terça-feira, 29 de Julho de 2008
God bless Ireland

As eleições estão se aproximando e eu recomendo a todos a leitura do capítulo Circe, do Ulisses e acompanhar de perto a lista dos piores livros distribuídos pelo então candidato a prefeito de Bloomusalem, Leopold Bloom. É de matar de rir que há quase 100 anos (tá bom, 90, you bastards) "Jesus, um mito do sol" e "Como ganhar dinheiro economicamente?" já fossem best-sellers. Confesso que não me lembro se os nomes eram exatamente estes.
Agora, vem cá, da próxima vez que eu for pra Argentina e o Museu Nacional de Belas Artes resolver ficar de greve bem naquela semana, eles bem que podiam me ligar avisando, né?
Ainda não recuperada do choque.
Olha só, Roberto Bolaño na poesia também é demais.
Sobre filmes:
Batman - O cavaleiro das trevas: filme que deve ser amplamente apreciado por doentes mentais, paranóicos e assassinos em potencial. Quer dizer: a humanidade.
Arquivo X: aquela velha história de "o inferno está cheio de boas intenções". Please don't waste my time.
Hancock: Esse é pra comprovar que a falha dos roteiristas em Hollywood deixou cicatrizes profundas nos corações dos envolvidos.
Agente 86: eu já nem gosto da Anne Hathaway, prefiro a Keira Knightley.
Kung Fu Panda: válido, se for para continuar a experiência colecionando os bonequinhos que vêm no Mclanche Feliz.
Sex and the City: olha, já falei o que eu acho sobre isso.
Wall-E: ecológico sem bunda-molice e papas na língua. Indicado até para aqueles que praticam tiro ao alvo em pacifistas do Greenpeace.
O Incrível Hulk: para causar em brasileiros a reação "Oi, Brasil na telona, amo meu país, vou até ligar pra minha mãe pra contar" e depois tirar uma boa sonequinha durante as próximas duas horas.
Gente, é claro que eu to sem assunto.
Terça-feira, 8 de Julho de 2008
Emily Dickinson
My friend attacks my friend!
Oh Battle picturesque!
Then I turn Soldier too,
And he turns Satirist!
How martial is this place!
Had I a mighty gun
I think I'd shoot the human race
And then to glory run!
The end
Sobre a notícia de que a Associação Britânica de Médicos quer impôr aos filmes e propagandas que mostram jovens fumando cigarros uma espécie de "censura", ou aviso falando sobre os males que o cigarro traz, eu sugiro que os males que o estupro traz sejam bem destacados antes de toda e qualquer exibição de Laranja Mecânica, que os males que os assassinatos trazem sejam destacados antes dos filmes do Hitchcock e também antes da exibição deste novo filme Kung-Fu Panda, já que ao que me parece, um tigre é morto no final, e que os males trazidos ao assistir a péssima atuação da Liv Tyler neste Hulk também sejam colocados em destaque.
Meu deus, que mundo imbecil.
Quarta-feira, 18 de Junho de 2008
Sobre o saber muito pouco ou quase nada
Eu não tenho pressa em expor minhas opiniões nas conversas lideradas por pessoas mais velhas que considero inteligentes porque confio no tempo em que estas pessoas tiveram para ler tudo o que eu ainda não li e confio na sua capacidade (que fique claro que esta não é a capacidade de todas as pessoas mais velhas, of course) de selecionar o que ler.
Isto não quer dizer que sou submissa ou que me considero incapaz de expor algum ponto inteligente. Mas sendo minimamente esperta, tenho que admitir: as chances são mínimas.
Ou será que confio demais no tempo e nas pessoas?
E se não pudermos confiar em ninguém?
Well dear, as pessoas todas são formadas dos mesmos elementos que formam as mesmas células que formam os mesmos tecidos que formam os mesmos órgãos que formam corpos parecidos e completamente diferentes. Mas isso quer dizer que temos alguma coisa em comum.
Se temos alguma coisa em comum, escolho confiar em algumas pessoas.
Algumas mortas, com elas eu não converso, só antes de dormir ou quando estou ficando louca.
Disso tudo só posso concluir que saber quase nada é uma benção: se há tanto para aprender, ainda vou ter tanto com o que ocupar a minha mente enquanto eu viver e isso é sempre bom, porque, vocês sabem, cabeça vazia...
Eu também não gosto de reticências.
Segunda-feira, 16 de Junho de 2008
I hate you Carrie Bradshaw

Ilustração: David Hughes
Eu não vou repassar o assunto sobre o quanto eu odeio o feminismo e forçações de barra que vêm anexadas a ele. Em vez disso, vou apenas relembrar my fellow readers sobre este ponto e fazer com que sejam obrigados a puxá-lo de memória. Ou então ler artigo anterior sobre o assunto.
Isto posto.
Na maior parte do tempo, eu gosto de levar a vida como uma pessoa do sexo feminino. As roupas foram feitas para mim, nós somos o sexo belo, podemos nos aproveitar de sermos “frágeis” para não carregar malas e, enfim, há uma lista imensa de detalhes pequenos da vida atual que me fazem estar satisfeita com a minha posição “mulher” na sociedade.
O que me chateia com freqüência é ser obrigada a engolir certos produtos fabricados “para mulheres” que nada mais são do que uma vergonha e mais um motivo para que sejamos piada em frente ao outro sexo (não quero ser redundante). Um deles é a revista Nova. Outro é o seriado, agora filme, Sex and the City.
Essa foi a semana da febre “reunir as amigas tomar um cafezinho e assistir Sex and the City”. Nada contra. Adoro reunir as amigas, tomar café, vinho, comer pizza e falar mal dos outros. Adoro. Esse é um traço bem feminino da minha personalidade que não nego.
Mas este filme é demais para mim. Olha, eu preciso desabafar.
Todas as mulheres com quem conversei parecem ter gostado dessa palhaçada ridícula e inverossímil, o filme mais esperado pela gay community e pelas associações de mulheres desesperadas, ops, bem sucedidas, através do mundo. Tudo o que vi na tela foi uma sucessão de demonstrações de egoísmo, futilidade, falta de comprometimento com bigger issues e enobrecimento de atitudes que não levam a nada.
Carrie Bradshaw. “Escritora” e jornalista, diz que todas as mulheres que vão a Nova Iorque só estão pensando em “Labels and Love”. Eu não vou discutir a questão “labels”, porque acredito que todos têm o direito de gastar o seu dinheiro e o seu tempo livre (e isso inclui o meu, é claro, já que também gosto de moda) da maneira que os fizer menos miseráveis e se isso incluir um vestido Oscar de la Renta, ou uma bolsa Prada, não acho que seja um grande problema. A preocupação com o design e com as artes visuais passaram a fazer parte da história humana e contanto que o amor pelas “marcas” não saia do controle e que as mulheres tenham outras coisas em mente, o amor pela moda pode ser visto como nada mais nada menos do que um amor pela humanidade que custa muito caro.
Agora, amor? A menos que a sua concepção de amor seja provar para 170 pessoas que você pode vestir um Vivienne Westwood e que um homem está interessado em pagar a sua ida à igreja e uma recepção para tantas pessoas, que, sem dúvida, 80% são consideradas por você mesma desprezíveis, não acho que isso seja amor. Agora lá vem, porque vão me dizer que eu sou uma feminista louca contra casamento na igreja e outras frescurices de mulher. Oi? Muito pelo contrário. É a tal Carrie Bradshaw e suas amigas de Sex and the City que pareciam ter outras questões em mente muito além do vestido branco e véu e grinalda e no final das contas se viram reféns de uma coisa tão imbecil quanto uma capa na Vogue para mostrar que saiu da solteirice. Quer dizer: Carrie é machona o suficiente para, a dois, não aceitar que seu futuro marido pague o apartamento em que ela vai morar sozinho. Mas não é tough enough para agüentar ser largada na igreja. Ora, na hora de fazer a listinha de quem iria testemunhar sua felicidade ela foi generosa. Mas na hora de encarar o abandono, coitada, se viu de novo nas mãos de um perverso homem-lobo vindo direto das cavernas, insensível, burro e fraco como, caham, “todo homem deve ser”.
Aliás, sobre abandono no altar, alguém me explica aquela cena em que Mr. Big resolve apenas não casar com Carrie e sair correndo porque bateu o desespero já que a mocinha não atendia o celular? Será que alguma coisa pode ser mais ridícula do que o momento em que aquele imbecil de 45 anos fica escondido dentro do carro repetindo: “Look at me Carrie, look at me babe, I need to know it’s still us”?
Primeiro que homem nem tem essas de “I need to know it’s still us”. Quem se envolve nessas questões irrespondíveis e adequadas a consultórios psicanalíticos geralmente são mulheres pentelhas que não sabem ver a vida com objetividade e praticidade. Segundo que, come on, o cara gastou aquela grana no apartamento, no casamento, e vai vender a dignidade assim, facinho, de grátis, só porque a Sarah Jessica Parker não atendeu o celular?
Eu até faria uma análise mais profunda sobre a situação da mulher e do homem na sociedade e sobre como a gradual ascensão da mulher fez com que fosse criado um tipo caricaturado de homem que não existe e que, se existisse de verdade, o mundo estaria em um caos ainda maior do que já se encontra. Mas por que motivo eu seria tão profunda se as próprias personagens do seriado mais idolatrado pelas mulheres nos últimos anos são tão superficiais?
Eu não sou contra o entretenimento baixo e de pouca qualidade. Não sou contra novelas. Eu mesma assisto a novelas quando preciso esvaziar a mente e quando a leitura de Ulisses certamente não irá contribuir muito para o esvaziamento total e completo do pensamento.
Mas esse tipo de passatempo deve e tem que ser visto apenas como passatempo. O que me preocupa é que muitas mulheres realmente pensam que a vida é daquele jeito. Que os homens são um bando de canalhas sem coração que largam mocinhas no altar. Que, se não são isso e se querem entrar seriamente em um relacionamento, só podem ser estupidamente desinteressantes, como Steve, o marido de Miranda, ou completamente burros e estéticos, como o coitado que acaba levando um pé na bunda da Samantha.
Onde foi parar o senso de auto-análise dessas personagens e das mulheres que as admiram? Quão patético pode ser uma mulher com 50 anos que só pensa em sexo? E uma maluca que se separa por um motivo completamente injustificado apenas por pena de si mesma, sem pensar no filho? E uma outra, tão sem graça que só foi citada no final desta resenha, que passa a maior parte do seu tempo obcecada com a idéia de ficar grávida?
Isso é amor? Isso é o que? Alguém me explica, eu perdi o fio da meada. Nesse filme não se fala nem em desenvolvimento pessoal ou whatever. O mais perto que chegamos de algum trabalho intelectual é uma breve citação de Keats que Carrie faz quando, de novo, está pensando nela mesma e nas cartas que não recebeu do seu não-romântico e péssimo namorado.
De novo, insisto, se Sex and the City fosse só diversão, nada disso me importava. Não sou elitista ao ponto de pensar que não se pode perder tempo com bobagens. A minha preocupação é a que ponto essas bobagens passam a ser levadas a sério quando o vazio espiritual é muito grande.
Domingo, 8 de Junho de 2008
Bolaño, como te quiero

Roberto Bolaño é o latino-americano da vez. Já houve tempos em que só eram citados grandes nomes como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges. Ao que tudo indica, o chileno ganhará seu lugar merecido entre os grandes que contaram a histórica da miséria e do amor nesses países em que tudo é mais escasso e colorido e os acordes das músicas são sempre em tom maior. Nesse países onde o ritmo da dança lembra a pornografia.
Bolaño começou a ganhar fama no Brasil e nos Estados Unidos quando morreu, em 2003. Sua obra-prima, os Detetives Selvagens, foi publicada no Chile em 1998. Mas só foi traduzido para o português em 2006.
Os personagens principais são Ulisses Lima e Arturo Belano, dois poetas real-visceralistas que resolvem empreender uma busca para encontrar a poeta Cesárea Tinajero, criadora do tal real-visceralismo, o movimento poético do qual fazem parte os dois e seus amigos.
A história é contada sob a perspectiva de diversos personagens. A princípio, lemos o diário de um outro poeta real-visceralista, García Madero. García é aficionado por poesia e despreza seus companheiros, que considera incultos, pois não sabem de cor todas as métricas poéticas já inventadas no mundo. Ele sabe. O jovem poeta (tinha menos de 20 anos quando começa a narrar a história) conhece todas as formas de poesia utilizadas durante o percurso literário da humanidade.
A verdade é que o livro inteiro é uma aula. Em um dado momento, paramos de seguir o diário de García Madero e começamos a ler os depoimentos de diversos escritores, jovens, artistas e malucos do mundo todo que encontraram os dois poetas entre os anos de 1976 e 1996. Há quem diga que Arturo Belano seria o próprio Roberto Bolaño e que Ulisses Lima seria o amigo de Bolaño, Mario Santiago Papasquiaro.
Os depoimentos contam a história do México, do real-visceralismo, da juventude nascida nos anos 50 e também, como não poderia deixar de ser em uma boa obra de ficção, os Detetives Selvagens conta a história do amor. Os personagens são apaixonantes e nos surpreendem a cada passagem excêntrica contada durante todo o livro. Como a história de Auxilio Lacouture, que ficou presa durante 15 dias em um banheiro da universidade durante uma revolução. Durante esse tempo, tudo o que Auxilio fez foi ler um livro de poesia de Pedro Garfia que tinha guardado com ela e escrever em folhas e folhas de papel higiênico.
É nesse clima de improvável realidade, porém distante do realismo mágico de Gabriel García Márquez, que as histórias contadas pelos excêntricos personagens se desenrolam. Tudo isso em meio a milhares (sem exageros) e milhares de referências literárias, poéticas e ficcionais, que os poetas citam ao longo de seus discursos.
Detetives Selvagens é uma declaração de amor à literatura e aos amantes da literatura. É uma imersão no mundo das letras, da escrita, da ficção e da poética. No mundo de Lima, Belano, e dos real-visceralistas, todos são apaixonados pela grande arte. Desde os jovens poetas, até os pais deles, como é o caso das irmãs poetas María Font e Angélica Font, cujo pai, Joaquim Font, é arquiteto, mas está sempre sonhando em finalizar sua revista literária real-visceralista. Neste mesmo mundo, todos os poetas e escritores tomam partido. Há os que idolatram Octavio Paz, o grande poeta mexicano e único a ter recebido o prêmio Nobel. Há os que o odeiam.
Na Cidade do México que passamos a conhecer e conviver, todo mundo respira poesia. Só se fala em poesia. Só se vive poesia. Jovens e velhos. Mulheres e homens. Quando não estão vivendo a poesia, estão apaixonados. E assim são as poucas mais de 600 páginas de Detetives Selvagens. Um presente, uma carta de amor, uma loucura homenagem a nós, os que amam a literatura acima de tudo.
(Para a Revista Idéias n° 80)
Quarta-feira, 4 de Junho de 2008
Faz tempo
Quando eu era pequena, eu rezava antes de dormir e pedia para nunca mais ter insônia e pesadelos que me impediam de respirar.
Quinta-feira, 29 de Maio de 2008
Últimos cartuchos

La noche tiene ojos sin pupilas
y largas manos
Qué buen tiempo hace
Hay una estrella roja
y largas serpientes nocturnas
Hace buen tiempo
Es necesario gritar para no estar triste
las horas danzan
Es necesario rugir para no matar
para no morir cantando
para no enrojecer de vergüenza
y de rabia
Nada mejor que irse
tomar el bastón
y caminar
Cuando uno agota los nervios
y se enfurece
Qué buen tiempo hace
las campanas repican a difuntos
y por la gloria de las armas
todo tiene que volver a empezar
Pese a la oscuridad veo
cómo caen cabezas en el cesto
bajo el golpe de la guillotina
diviso ahogados que flotan
y ahorcados que se balancean
Se oyen gritos en los hospitales
Qué buen tiempo hace
Uno se mira en el espejo
por placer
y se encuentra realmente feo
pero uno piensa en otra cosa
para no desesperar
Qué se ve
realmente
qué se ve
El cementerio es encantador
hay flores coronas
cruces e inscripciones
Qué buen tiempo hace
Qué se oye
el sol toca el clarín
en las puertas de los cafés
es la batalla definitiva
la ciudad muere al son de las ranas
y las flores caen
severamente
como árboles desarraigados
Aquí están los hombres
están tan pálidos como los vivos
llevan corbatas rojas
bastones con punteras de plomo
y diarios de todos los colores
Se detienen
y juegan
a cara o cruz
Cada vez hace mejor tiempo
Banderas y música al frente
inclinamos la cabeza
porque cada vez estamos más
solos
pálidos
feos
Tenemos que reiniciar la marcha
a cara o cruz a risa de vino y licores
Los cafés están empavesados
como las sonrisas de las damiselas
avancemos siempre
pronto sabremos lo que ha de venir
Realmente hace muy buen tiempo
Segunda-feira, 26 de Maio de 2008
A síndrome do pequeno poder toma proporções excêntricas
Eu não sei separar a ficção da realidade. Quando vejo um filme de terror, fico em média três meses impossibilitada de dormir. Isso aconteceu quando vi os filmes mais bestas. A primeira vez foi quando assisti Batman, aquele com a Mulher Gato e o Pingüim. Eu tinha sete anos. Não preguei o olho durante mais de 90 dias imaginando as garras do Pingüim me arrastando para um esgoto nojento. Alguém pode argumentar dizendo que eu era muito pequena. Certo, mas quando eu tinha 19 anos eu assisti “Jogos Mortais” e toda vez que estacionava o carro na garagem, entrava em pânico achando que um cara vestido de porco ia me atacar e me prender e me torturar e, enfim, ui, não quero nem pensar nisso porque, como eu disse, não sei separar ficção de realidade.
Nem com todos esses motivos para ser julgada como uma pessoa que não sabe separar o que acontece na ficção do que acontece na vida, não tive qualquer tipo de restrição quando decidi comprar “O Estrangeiro” do Camus. Primeiro, vamos deixar claro que eu não gostei desse livro. Até aí, tudo normal. Depois, vamos filosofar a respeito da compra. Ninguém me impediu de comprar este livro que prega a violência gratuita. Opa, prega? Prega, se formos levar em conta que a passeata da maconha incentiva o uso das drogas e que o “Mein Kampf” é proibido em terras alemãs porque ____________ (insira aqui o motivo).
O que me levou a escrever sobre este assunto que ainda parece bem desconexo, mas logo seguirá sua linha de raciocínio tranquilamente, foi a notícia de que um certo jogo de computador foi proibido no Brasil porque “incentiva a violência”. Quero deixar muito claro que não gosto de jogos de computador. Isto posto, quero dizer que acho um absurdo a justiça decidir cercear a liberdade de expressão a esse ponto.
Proibir a passeata da maconha já foi ridículo, mas eu deixei passar, até porque, li vários blogueiros brasileiros defendendo o direito dos maconheiros de fazer manifestação e passeata sobre o que bem entenderem. Ora, é óbvio. Sou a favor das passeatas motivadas por quaisquer absurdos imagináveis. Sou a favor de passeatas do Ku Klux Klan. De passeatas a favor da legalização do assassinato. De passeatas a favor dos nazistas, de passeatas contra as mulheres mesmo eu sendo mulher, enfim, é aquela máxima voltairiana, tem que deixar o povo falar o que quiser. O-que-quiser. E “o que quiser” não permite restrições porque a linha que cruza a “restrição necessária” à “restrição over-reacted” e que alcança a “restrição absurda” é muito, muito tênue e não pode ser jogada para qualquer jurista imbecil decidir. A livre manifestação do pensamento é um bem precioso e deve ser tratado com muito mais cuidado do que este. Vide países em que ela não existe.
Vi um blog dizer que se o motivo de proibir a passeata da maconha era que ela estaria incentivando o uso da substância, então os manifestantes só poderiam ser acusados caso realmente tivessem praticado tal incentivo durante a “marcha”. Caso não incentivassem, tudo continuaria como sempre foi e a liberdade das pessoas estaria salva. Que é difícil de imaginar a tal marcha sem o incentivo, ô se é. Mas este não é um ponto a ser levado em consideração.
Voltando aos jogos de computador, fico estarrecida ao pensar sobre o que tudo isso implica. Proibir um jogo de computador porque ele “incentiva a violência” pressupõe que existe um ser maior (e nesse caso não é deus, e sim o juiz) que sabe julgar até mesmo as nossas consciências e tirar conclusões sobre como elas são influenciadas. Não é incrível? Freud ficaria orgulhoso. Se não se tratasse apenas daquela já conhecida “síndrome do pequeno poder”, muito famosa em países permeados por muita burocracia e justiça esquisitona baseada no politicamente correto.
Atualização: Hélio Schwartsman também acha.

















